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Núcleo de Estudos do Futuro
O futuro do biodiesel & biomassa no Brasil
Autor(es): Carlos Pedro Staudt
O planeta azul recebeu uma justa homenagem de um dos nossos mais importantes expoentes da música, Caetano Veloso , na canção "Terra", que diz "...Por mais distante o errante navegante, quem jamais te esqueceria ? ..." . As primeiras imagens do planeta visto do espaço foram apresentadas em 1968. Sensibilizaram o poeta, a comunidade científica e demais cidadãos de todos os continentes. A partir de então os encontros científicos voltados para este tema sucederam-se com maior freqüência e o avanço da ciência permitiu a ampliação do conhecimento sobre o planeta e dos mecanismos climáticos.
Sabe-se que a faixa tropical é a mais beneficiada pelo astro rei ao longo do ano. Esta faixa delimitada pelos trópicos de capricórnio ao sul e de câncer ao norte corresponde praticamente a um quarto da superfície do planeta. Nela se registram as maiores médias pluviométricas. Resulta daí uma condição extraordinária para o cultivo da biomassa para fins alimentares, energéticos, de engenharia e para fibras diversas. O potencial da biomassa para fins energéticos ainda não é bem compreendido nos países que detêm as melhores oportunidades comparativas. No caso Brasil o Proalcool é um exemplo de aproveitamento do imenso território e das condições climáticas extremamente favoráveis, mas pode-se avançar muito mais neste campo.
As nações com maior demanda energética estão localizadas no hemisfério norte, fora da faixa tropical. Pode-se projetar que em curto prazo, os Estados Unidos e a Europa serão os maiores mercados para os biocombustíveis. Oportunidade imediata para o Brasil seguido pela região médio sul da África. Esta, porém, ao contrário do Brasil necessita de grandes investimentos em pesquisa, tecnologia, recursos humanos e infra-estrutura. Malásia e Indonésia seguem no mesmo caminho, mas apresentam limitações territoriais. Vale destacar que o primeiro carregamento de biodiesel para Europa partiu da Malásia em 2006.
A poluição do ar passou a ser sentida de forma mais acentuada pela humanidade principalmente nos centros urbanos a partir da Revolução Industrial, com a queima de madeira e posteriormente do carvão mineral. No século XX esta poluição agravou-se com a introdução do petróleo como fonte de combustível líquido. Os combustíveis fósseis - carvão mineral, petróleo e gás natural - produzem entre outros poluentes, o gás carbônico, principal gás de efeito estufa. As inovações tecnológicas levaram a um aumento significativo da frota de automóveis e de outros meios de transporte movidos a partir dos derivados de petróleo - gasolina e diesel. A poluição do ar tornou-se um problema mundial. As elevações do padrão de vida e do consumo têm relação muito forte com o aumento das emissões. As ações antrópicas apresentam dimensões percebidas facilmente pelos satélites, como é o caso das queimadas.
O aumento das emissões tem acelerado o processo de aquecimento global e encontram nos países hegemônicos, localizados no hemisfério norte, seus principais contribuidores. Três deles são os maiores emissores per capita: Estados Unidos, Noruega e Austrália. Participam com mais de 15 toneladas de CO2 ao ano, o que significa uma forte dependência dos combustíveis fósseis, principalmente carvão mineral utilizado em termelétricas. Já os países africanos na sua grande maioria participam com menos de 1 tonelada de CO2. Cabe dizer que o efeito estufa é um processo natural que garante a existência de vida no planeta. É através da radiação solar - energia eletromagnética - transformada em calor, retida em parte, na atmosfera, nos oceanos e nos continentes que a temperatura média no planeta se mantêm em torno de 15°C.
No último século a temperatura média teve um incremento de 0,6°C. Este fato pode desencadear um processo de mudanças climáticas. Os efeitos já são perceptíveis: o aumento das ocorrências de furacões no pacífico oeste e atlântico norte, o desgelo no monte Kilimanjaro localizado no sul da África, a cinco mil metros de altitude, conhecido como o "monte das neves eternas". Estas são apenas algumas evidências, dentre muitas outras. Os cenários não são nada animadores. Na melhor condição teremos ao final do século um aumento de 1°C na temperatura média. No pior cenário que representa a continuidade do modelo econômico atual este valor alcançará 4°C. Importante observar que este incremento não ocorre de maneira uniforme, isto quer dizer que em algumas regiões a temperatura se elevará acima desta média, provocando efeitos devastadores.
Um importante marco para a criação de um instrumento de governança global foi a instituição da Convenção Quadro das Nações Unidas, ocorrida em 1992 na cidade do Rio de Janeiro. Este evento foi o maior fórum mundial preocupado com as mudanças climáticas e a biodiversidade. A partir daí estabeleceram-se metas para a redução das emissões. Várias ações podem mitigar este processo na busca de um cenário menos impactante sobre a vida: redução da demanda e melhoria da eficiência energética e uso de energias limpas.
Uma grande contribuição está na substituição parcial dos combustíveis fósseis derivados do petróleo pelos biocombustíveis oriundos da biomassa. Define-se biomassa como sendo matéria orgânica utilizada como recurso energético. É o gás carbônico retirado da atmosfera que garante o processo de fotossíntese na produção da biomassa vegetal. Participam com igual importância a água e a energia eletromagnética do sol. Tem-se aí um ciclo virtuoso.
Pode-se definir três processos básicos de conversão energética da biomassa: conversão através da queima, da decomposição, e por extração e transformação. No primeiro processo, o mais conhecido, podemos citar o exemplo do uso da lenha na preparação de alimentos. Outro exemplo importante é o da queima de bagaço de cana na geração de energia elétrica e mecânica a partir do vapor d'água. No segundo processo pode-se obter biogás a partir de material orgânico depositado em aterros sanitários ou em biodigestores. O terceiro processo é aplicado na fabricação dos biocombustíveis: bioetanol e biodiesel. A partir da fermentação da calda extraída da cana de açúcar, resulta o bioetanol. Para a obtenção do biodiesel, são extraídos os óleos vegetais de sementes e grãos do girassol, da soja, do dendê e do amendoim entre outros. Este óleo passa por um processo químico com adição de etanol ou metanol, resultando então no biodiesel. Pode-se utilizar óleos e gorduras de origem animal.
As dimensões continentais do Brasil e a riqueza de sua biodiversidade, aponta para uma grande variedade de espécies de oleaginosas na fabricação do biodiesel, contemplando as vocações regionais. O jornalista Gilberto Felisberto Vasconcelos reforça esta idéia, quando diz "Somos a maior nação solar do planeta Terra. Nenhum outro país detém tanta água doce - a contrapartida da energia solar para a formação dos hidratos de carbono, ou seja, da biomassa".
Os biocombustíveis vêm assumindo cada vez mais seu papel de alternativa energética renovável e limpa. O país tem uma larga experiência, principalmente com o etanol, que foi adicionado a gasolina já na década de 1930. Mais recentemente na década de 1970 surgiu o Proalcool em resposta ao embargo do petróleo. Vários países dependentes de sua importação também buscaram alternativas. Neste período o biodiesel foi pesquisado e testado no país, mas não houve continuidade. Seu estudo foi retomado em 1998 por algumas universidades. Já na Europa principalmente na Alemanha a sua produção comercial teve início nos primeiros anos da década de 1990. Em 2006 a produção européia ultrapassou a marca de 4 bilhões de litros/ano.
O programa brasileiro de produção e uso de biodiesel é recente, lançado pelo governo federal em 2004. No ano seguinte foi inaugurada a primeira usina de biodiesel brasileira, no município de Cássia - sul de Minas Gerais - e neste mesmo ano o produto passa a ser comercializado pela distribuidora ALE. O programa, na sua primeira etapa, autoriza a comercialização do B2 que é a mistura de 2% de biodiesel ao diesel mineral. A partir de 2008 todos os postos de combustíveis deverão ter este produto em suas bombas obrigatoriamente. Fazendo-se uma comparação com a Europa, o seu volume de produção atenderia o estágio B5 do programa brasileiro, previsto para vigorar em 2013.
O Brasil tem tradição na utilização de fontes renováveis de energia. Na sua matriz energética participam com aproximadamente 44%, principalmente a hidroeletricidade e biomassa (lenha, álcool, bagaço de cana e resíduos de madeira). Trata-se de um percentual expressivo já que a média mundial é de 20%. O Brasil é hoje o maior produtor de álcool e detém a melhor tecnologia neste setor. Isto confirma a potencialidade brasileira na produção de biomassa para geração de energia.
A National Biodiesel Board, instituição responsável pela implementação deste biocombustível nos Estados Unidos, afirma que o Brasil tem condições de liderar a produção mundial de biodiesel, promovendo a substituição de, no mínimo, 60% do diesel mineral consumido no planeta. Os biocombustíveis apresentam-se como um novo paradigma energético para um planeta mais sustentável. O país tem nas mãos uma grande oportunidade de modificar a sua realidade social e energética, desde de que o governo federal se posicione claramente neste sentido e que haja um efetivo comprometimento da iniciativa privada. Este processo deverá se apoiar nos três pilares do desenvolvimento sustentável, o econômico, o social e o ambiental.
Por fim, o que podemos esperar das energias renováveis para o futuro do planeta ? Vários cenários foram projetados. O mais favorável aponta que, no final deste século haverá uma expressiva participação da biomassa e da energia solar, em torno de 20% e 40%, respectivamente, em detrimento aos combustíveis fósseis que passarão dos atuais 80% para apenas 20%. Este é o futuro que esperamos. Ele só poderá se concretizar caso o modelo econômico atual de produção e de consumo seja radicalmente modificado. Temos diante de nós o maior desafio que humanidade já enfrentou em toda a sua história, isto é, garantir a manutenção da vida no planeta.
Carlos Pedro Staudt www.ecosfera21.com.br
Referência bibliográfica
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